quinta-feira, 6 de maio de 2010

Poemas dos Poetas En|Cena 4

Lançamento do livro Poetas Encena 4, no Sarau lítero Musical
Data: 16 de julho de 2010 - sexta feira
Local: Status Café Cultura e Arte
Rua Pernambuco, 1.150 - Savassi - Belo Horizonte - MG.

P A R T O

P


A


R


T


O


PARTI


PARTINDO.


P


A


R


T


O


PARI


PARINDO.


P


A


R


T


O


PARTINDO


PARINDO.



Cler de Veloix, é nome artístico da acadêmica Célia Maria Barbosa


ENCOMENDA
Perpétua Amorim

Você vai pra Minas Gerais?
Traga-me umas coisinhas de lá
Um queijo bem curado
Desses que dá para ralar
Pensando bem; traga mais dois
Um meia cura e o outro fresquinho,
Para acompanhar doce de leite
E de sidra raladinho.

Você vai pra Minas Gerais?
Traga-me umas coisinhas de lá
Um tanto bom de pão de queijo
Algumas broas de fubá.
Peça a prima Teresinha
Para fazer um frango ao molho
Com quiabo e polenta
Feitos no fogão de lenha
Bem puxado na pimenta.

Você vai pra Minas Gerais?
Traga-me umas coisinhas de lá
Uma dúzia de ovos frescos
Colhidos em vários ninhos
Antes do sol se pôr.
Traga-me uma rapadura
Do engenho do João Bentinho
Um embornal de pamonha
E um balaio com biscoitinhos.

Você vai pra Minas Gerais?
Traga-me umas coisinhas de lá
Aquela colcha de retalhos
Que a tia Fia está a coser
Juntando numa única peça
Toda a poesia de viver.
Desculpe-me tanto transtorno
Se as encomendas são demais
E que eu ainda preciso
De um litro de pinga pura
E outro com sassafrás.








FALAR
Luiz Eduardo Gunther


Havia a possibilidade
plena
de falar,
sem buscar
a palavra exata.

Mas só
no silêncio
de um olhar,
podia
a palavra toda
brotar.








PARA SER FELIZ
Ina Melo


Para ser feliz na vida, teci sonhos com
fios luminosos de sol, poeira
de estrelas e espumas do mar

Para ser feliz na vida, semeei
amor, esperanças e
flores no meu jardim

Para ser feliz na vida, fiz do
pouco muito, da tristeza alegria
da paixão amor











JOSÉ MINDLIN
Walnélia Corrêa Pederneiras


Estampas

nas paredes de meu viver,

ricos espaços de minha casa.

Inspirada em ti e em tua amada

Estantes preciosas

alinhadas em bibliotecas!



...Não só os livros


sentem falta de ti...



REDE
José Eduardo de Resende Chaves Júnior,
mais conhecido como Pepe Chaves.

O poema
Não é livre
Nem é teia
É uma língua
Me enreda na cadeia

O poema
esse canto de sereia
Tece, sobe e desce
E esse ‘s’ que acontece
O alívio me enleia.

Poema
Só poema
Só tonteia
Nada mais
Mais é tudo
Mais que nada
Verso livre não tem peia

Poema é asa
álea e lis
sem céu e sul
uma verdade e meia
puro sangue azul

Poeta não tem veia.






A MENINA
Eduardo Rennó

A menina que brilha
dos sapatos cintila
salto-alto na varanda
chove lá fora um pouquinho
amansa

Bate o sino da igreja
nove horas ainda descansa
cavalo trotando no sonho
balanço rodando sem parar
devagarinho rangendo
aos poucos

Faço mais um bocejinho
ando bem devagarinho
cigarro de palha no bolso

O sol se põe no caminho
e eu acho mais um rosto









PULSO CORTADO
Márcio Adriano Silva Moraes

veia aberta jorro notas agudas
no piano já não branco tecla
a prima suíte debussy
estanco o sangue com dó
e restituo minha faca solta
lagrimas no vermelho
sicário








A VERDADE É QUE OS PÁSSAROS DO CÉU ...
Marcos Freitas

a verdade é que os pássaros do céu
se sustentam no ar movidos pelos seus próprios sonhos
a verdade é que pisamos a terra do chão
esmagando com nossos calcanhares nossos próprios destinos
a verdade é que esquecemos – constantemente –
de que somos feitos pra dar carinho










SENSITIVO
Olivier Zoroastro Martins


Em minha casa senti
Um velho espelho que vê
Um criado mudo que fala
Cama vazia que dorme
Parede fria a ouvir...
E a vida correndo entre os dedos.

De muitas lembranças plantei
Janelas violadas pelo sol
Um livro sem palavras
Coração cheio de gente
Relógio parado no tempo...
E um amor a revelar-me segredos.

Se minha vida tropeça
De músicas e cheiros guardados
Na porta entreaberta que ri
Ouço preces a me agasalhar
Uma pessoa linda a florir:
Meus dias e noites e medos.










AMAR DIANTE DO ESPELHO
Jacqueline Aisenman

Eu te amo porque me vês tal qual

sou, serei e nunca talvez igual

Eu te amo porque me desejas

assim

Com tudo o que há de bom e mau

em mim

Eu te amo porque me olhas ardentemente

E o desejo acende, tudo rompe e de tudo

independe

Eu te amo porque somos partes,

Somos incondicionalmente a arte

de um reflexo que só a vida é capaz de nos dar

Eu te amo e o que vivemos é o abandono de nós,

o supremo mandamento, a lei única da existência,

emblemática do que somos

E entre nós não há paredes sintomáticas

Há somente a essência do amor, puro, sem danos.

Sei quem és, te aceito em teu nome, amém.
Sabes quem sou, me aceitas em meu nome, amém.



MARIA NAVEGANTE
Jiçara Martins


Vejo canoas e barcos,
Vejo marcos.
Ancoradouros…
Sumidouros...
Navego por calmarias,
Entre Joões e Marias,
Navegantes… Viajantes…
Eu… Um iogue ou uma alternativa.
Quieta, rebelde.
Tímida, travessa,
Cheia de entrelinhas.
Num porto qualquer,
Aporto, desembarco,
Sem rumo…
À busca de um prumo,
Que me alinhe, costure, remende;
Ou me faça uma nova vestimenta.
SERÁ…?!








QUINA
Regine
Limaverde


Eram cinco homens belos.
Eram cinco donas belas.
Eram cinco rosas dadas.
Eram as cinco amarelas. .

Eram cinco gargalhadas
nas cinco bocas vermelhas,
nas cinco bocas de macho,
a acender cinco centelhas. .

O fogo que foi queimado
em cinco tochas virou.
Eram cinco donas tristes.
Cinco chorando de amor.



EVA PERÓN
Saul Martins


Vi longe enfurecido o mar, vi quando
Varria a angústia os sáfaros escolhos,
Vi mães, Evita, em vão por entre abrolhos
Querendo ver-te, míseras chorando.

E entre a relva da pampa e agrestes molhos
De flores perfumosas vi-te andando,
À meiguice da brisa, e contemplando
A barra anil já próxima dos olhos.

E mais eu vi de cá destas montanhas,
Vi torrentes de lágrimas tamanhas
Banhando a tua pátria de saudade.

E vi-te, enfim, ó flor do sofrimento,
Abrir a fímbria azul do firmamento
E majestosa entrar na eternidade.




DESABAFO
Cris di Castro
'
'
Nasci feia, enrugada, desgraçada.
Largada por meus pais... É o que sei.
Cresci na droga: humilhada, adulterada...
Deflorada, em pouco tempo me perdi
Induzida por quem amei...
Mau caráter, bom vivant.
Seu corpo me aquecia!
Buscava meus beijos com afã.
Ninguém nasce mau.
É que eu não tive em quem me agarrar...
Olhe pra mim...
Sou fracassada; mas, ainda gente.
E delinquente nehum vai me tosar.
Pego bagana de cigarro... Tiro um trago.
Cheiro o prazer...
A desgraça vem.
Me sinto só.
Sem amor... Sem carinho...
Me dê veneno pra eu beber...
Me ajuda a viver, a matar ou morrer.
Me liberta dessa detestável sorte...
Quero palácios, riquezas ou então, a morte!
Falo comigo, falo com Deus...
Ninguém me ouve.
Passam nas ruas carros lindos! Acho esquisito.
Venha morte...
Veja meu olhar petrificado...
Meu cérebro diluído...
Venha lentamente me libertar...
Não!
Não tão cruel assim.
Lentamente, devagar...







RANHURAS BUCAIS
Brenda Mar(que)s Pena


A garganta dolente expele gritos roucos:
Disturbiantes dementes se aproximam
Palavriantes cuspidores de cacos
Na ponta da arma se desalmam.

Como a luta armada irrita a alma!
Tamanha estupidez e intolerância
De espelhos da torpe arrogância
Desesperos dos valores da infância.

Engolidores de dinheiro expelem hipocrisia
Enquanto o sangue cobre de lama o chão
Em atos que provocam no estômago azia
E nos olhos aguça-se a sede de compaixão.











UM SUJEITO E SEUS PREDICADOS
Roberto Damasceno Netto


Era um sujeito determinado a ser feliz.
Composto de boas ideias.
Porém, num dia indeterminado, o governo as refugou.
Colocou-as inexistentes.
Tranquilamente, continuou ocultamente feliz.
Era um sujeito simples.
Dizia, aos amigos, que este governo é um sujeito sem oração
e de muita Contra-dicção.
Para encurtar a história,
este sujeito acabou sendo mesmo feliz.
Pois era um sujeito simples.
Composto de boas ideias.





CHANCES
Túlio Sousa

Vai...
por toda a estrada que assim surgir
te espera o mundo assim como eu
contemple tudo que está por vir
guarda contigo o que aconteceu
Vai...
por todo o sonho que persistir
será de sonho tal realidade?
sonha, contudo se fizer sorrir
sorria às chances de felicidade
sem você minto graça onde há só saudade
tão grande é o querer bem que você me traz
tal qual sentimento a nos confundir amizade
tão quanto a falta que você me faz



CINES DA CIDADE
Valdemar Alves


Cine São Luís: As aventuras de Tom Jones; Cleópatra
Cine Gazeta: A Voz da Lua; Encouraçado Potemkim
Cine Old Metrópole: O Pecado do Xerife; A Última Sessão de Cinema
Cine Fortaleza: Amarcord; Chinatown
Cine Art: A Noviça Rebelde; Ladrão de Bicicleta
Cine Ventura: Doutor Jivago; Woodstock
Cine Cristo Rei: Yellow Submarine
Cine Assunção: Cidadão Kane
Cine Toaçu: Balão Vermelho
Cine Jangada: Paixão de Cristo
Cine majestic: Carlitos
Cine Moderno: Tarzan
Cine diogo: Vidas secas; La Violettera
Cine Samburá: O grande Motom; Noite Vazia
Clube de Cinema: Irmãos Rocco
Cine Familiar; Cine Politeama; Cine Atapu; Cine Félix Caixeral; Cine Araçanga



PROJETO BORBOLETA (:)
Clevane Pessoa


Registro da formação estática, casulo ou ninfa,
registro das asas em movimento,
cores muitas, formas várias,
símbolo de fidelidade no Oriente
de efêmero, no Ocidente.
A paciência da espera num halo de encantamento.
A pupa. Silêncio de meditação.
A forma alada;
secar as asas, fortalecê-las,
para voar, voar, quais balerinos
incansáveis.
o frêmito da vida.
Os ovos. A fragilidade e a fortaleza.
Falena, mariposa, borboleta,
cada qual no seu tempo de ser:
“crisantempo”: uma papilionácea
pousada no crisântemo, à distância,
merece um desenho, um poema,
um suspiro de admiração...





MIRAGENS
Cosme Custódio da Silva


Quando ela disse-me adeus
Sem antes edito ou édito
Tampouco edital
Sutil e inconsútil
Nos frescores leitosos
Da sua esbelteza
Oh, Deus!
Que tristeza deu-me

Escarlate de furor
Doido e doido
Vi desterrado o inescrutável
Menoscabado o inescurecível
Ter preço o que outrora
Só tivera valor

Dessagrado o amor
Dessangrando o amar
Choro o aconchego perdido
Vagando no vasto deserto
Da vida
A vê-la nas miragens











LA POESIE
Cristina Carone

Ela andou dormindo
Por muitos anos.
Indolente
Lânguida
Bela e expressiva.
Sim... A poesia...
A expressão máxima
De Amor, Sentimento e Beleza.
Dormiu em seu leito
Sobre lençóis de cetim
E seu corpo nu,
Coberto por pétalas de rosas
Vermelhas e aveludadas...
Ela aspirava o perfume delas.
Dela vinha uma luz intensa
Do SOL dourado, durante o dia
DA LUA prateada, por toda a noite.
Era hora de acordá-la...
Era preciso...
Uma estrela cadente
Iluminou seus olhos,
E ela renasceu.
Hoje, ela se exprime em diversas formas:
Com suas mãos delicadas, toca corações.
Grita, protesta e ama sem limites
Com uma única esperança:
Levar ao mundo
Às pessoas
A PAZ, O BÁLSAMO e a PAIXÃO.



IMORTAL
Deiwson Ferreira de Magalhães,

(a última poesia)

Repouso agora meu corpo exausto
fadigado por tantas andanças;
Respiro pela última vez
e o olhar registra a imagem derradeira.
Os ombros estão pesados
e as pálpebras insistem em adormecer.
Repouso agora na cauda de um cometa,
serei levado ao infinito dos cosmos,
juntarei-me a outros astros peregrinos
e começarei a entender os mistérios do mistério da vida.
Contarei a outros povos, de outras galáxias,
que por mais que tenha aprendido,
não tive tempo de aprender tudo,
porque o tudo é o mistério.
Em meu novo estágio,
não sei se serei rei, ou apenas súdito;
Sábio ou mero operário;
Se estarei de fraldas ou apoiado em um cajado,
mas contar-lhes-ei sobre a paixão,
declinarei versos e falarei de música.
Tentarei explicar que a inspiração é algo tão abstrato,
tal como a razão,
e que o vazio é uma opção incompreendida.
Que as pessoas se amam,
mas ainda conseguem se odiar.
Vou contar-lhes que deixei fotos, filmagens e poesia,
que fui adubo e energia,
mas que tive uma única missão:
a de mudar a ordem das coisas.










CANDELABRO
Diego Mendes Sousa

Dói-me o peito
Queima-me a alma
esta solidão reclusa

Não por querer viver
Nesta orla-névoa
albicante como meu rosto

Se por medo da morte

Se por medo da perda
desta vida sob velas

Uma noite...

...Não serei solidão

Não serei solidão
quando o candelabro
for sereno
ao apagar-se








O CANTO DO GALO
Eliane Martins

Cante o galo a sua história de vitórias
vividas no canto do galo em memórias.
Venha a lágrima ou o largo sorriso
a palavra é parida em tom preciso.
Cante o galo o canto dos amores
hinos e bandeiras a ferver em cores
lançadas ao vento, puro sentimento,
a unir as paixões por todo momento.
Canta. Canta bem alto o canto do galo
levanta alto a sua voz - só então eu calo!
Levanta a multidão e também o palavrão
porque parir a verdade nunca é em vão.
Ainda que, as ouça irritadas e desacalmadas
lembre-se sempre das massas mais amadas
cujas vozes só se fazem ouvir no grito-febril
vindo do "cabra" nascido nas terras deste Brasil.


LIBIDO
Esther Rogessi

O Inesperado...
Quando te vi ó formosa...
Deleite sentiu minh’alma,
Minhas noites antes tão calmas,
Arderam no fogo da paixão...
Perplexidade...
Que visão a minha frente,
Enlevo tal qual... jovem nubente,
Em desejo crescente...
Descompassaste-me o coração
Observei..
Tua pele branca, faces rosadas
Teu perfume que não de Dálias...
Orquídeas..., ou outras rosáceas.
Peculiar..
É o teu perfume, inconfundível!
Acentua-me o libido e assim...
Naturalmente nua, causas inveja a lua.
Dupla trilha...
São tuas pernas... Alvas e descobertas,
Caminho para o Oásis de um sedento passarinho...
No encontro delas duas, chego ao porto desejado,
Sou beija-flor sugo o néctar dessa flor em descoberta.

Enfim...
Entre doces sussurros, gemidos e outros ais...
Gotas que não de orvalho de outro céu se esvai...
Umedecem a tua rosa, multiplicidade há em mim...
Emoções que jamais deixarão de existir...







ARTES
Fátima Borchert


Preciso
de pouco
muito pouco

Uma tinta
um papel
É só o que
carrego
comigo

E assim
pinto papel
com as letras
que me saem
das vísceras

Ás vezes
esse simples
papel
torna-se
tela colorida

E muitas
muitas vezes
esse simples
papel
pincela
num borrão
a vida



ROSA AMARELA
Euna Brito

Uma delicada gota
Acompanhada de muitas
Tamborilou com cuidado a cantiga
Que as chuvas gostam
De derramar nos telhados dos mosteiros...
Dentro de casa, estávamos nós duas:
Eu e a solidão.
Muito melhor que a confusão!...
Como um padre no confessionário,
Da janela, eu escutava o som da chuva
Nas folhas fendidas das bananeiras...
Os coqueiros onde o pássaro-preto gosta de fazer ninho
Lotavam o terreno!...
Não havia mais nada de novo na terra,
A não ser o indiscutível, indescritível apelo
Ao recomeço para acabar
O inacabado...
Ah, de desgosto eu não morro!
Não morro, pois sei de socorro.
Rabisco no ar um SOS
E Deus entende que é uma prece...
Uma medrosa rosa desabrocha
Sob os cuidados da jardineira de Lisieux...
Só ver pra crer!
Ou crer pra ver!...



SOU TUA MUSA
Kedma O´Liver

Como me sinto feliz
Ao ler os versos teus
Descrevendo fantasias
Sobre você e eu

Carinhos que gostaria
De comigo trocar
Palavras que a gente diria
Ao podermos nos encontrar

Cheiros deliciosos
Que no local ficaria
Marcando nossa presença
Por um momento, um dia

Esses sonhos são forças
Para poder continuar
Ser tua musa é me sentir poesia
Além de também te amar





PENSANDO BEM
Gertrudes Greco

Pensando bem,
que graça tudo tem?...
Será de todos,
não sendo de ninguém...
Sendo à toa
passa à fazer o bem,
um bem que mata
e faz viver também!...

Pensando bem
retorna pra cá, vem!
Sem mesmo ter,
ter ido com alguém...
Volta de onde
vida não convém,
convém viver
só pra dizer amém!...

Pensando bem,
queremos sempre um bem,
um bem que eleve,
que incentive, que convém...
E, deixa de lado
tudo que inconvém...
E só assim
conseguiremos ser alguém!!!




REGISTROS
Maria Célia Nogueira,
também, conhecida como Chesi Nogueira.


Falanges, falanginhas, falangetas...
Cansam-se todos os dedos de trabalhar,
para que possam escrever e registrar
todas as memórias das minhas gavetas...

É um diário vomitar de idéias;
um cotidiano registrar de sensações;
um inesgotável choro de paixão,
prá aliviar o já fraco e triste coração.

Um incansável trabalhar com as palavras;
rimas, regras, concordâncias e conjugações,
prá achar o termo certo, com o sentido exato,
que possa representar minhas insuperáveis emoções.

Mas, por mais perfeito que seja o vocábulo
é insuficiente; não consegue, nem de longe, captar
a emoção da razão humana, oráculo
do sentimento, que nos dá o glorioso poder de pensar.

Assim, prossigo eu neste diário e eterno tormento
de perseguir palavras... para encontrar o melhor jeito
de no papel por o que me vai na alma, o sentimento,
e o que sinto, registrar de modo mais que perfeito.




O BRILHO DAS FLORES
Maria da Cruz Pereira Nunes


A natureza, cantos e amores
Como os da realeza com certeza.
Chega a estação das flores.
Os pássaros cantam alegremente
E vem voando, festejando,
O desabrochar das flores.

Riso por todos os lados,
Nos lindos campos.
São as flores mimosas,
Lindas, pequenas, perfumosas
Unindo os corações separados.





POESIA?
Maria Morais


Poesia é renda urdida com seletas palavras
é som de harpa bucólica de pastor
é canto choroso da pomba verdadeira no final do dia
chamando a companheira que não chegou.

Poesia é flor desabrochando em seus matizes
é pedaço de lua vista pela nesga duma fresta
é sorriso de crianças brincando felizes
é mãe ninando, é melodia de violão em seresta.

Poesia tem efeito de bálsamo e de unguento
massageando delicadamente coração apertado,
é refrescante água pura de regato em movimento
é brisa da tarde trazendo vento perfumado.

Poesia é deleite suave de fé e esperança
é salmo, é música sem hipocrisia
com que o poeta tenta passar a confiança
na busca por amor, justiça e cidadania
é veículo de beleza – a poesia.







GOSTARIA
Marlene Reis Barbosa


Gostaria de ser uma lágrima
Nos olhos de um menino.

Gostaria de apagar as mágoas
E destruir o ódio.
Gostaria de transformar o mundo,
Pra sermos, todos felizes.

E de ser uma estrela
Pra clarear seu caminho.
Gostaria
De acabar com a desordem
E também com o egoísmo
Que, em silêncio profundo,
Rondam nossas vidas.

Gostaria
De calar a voz
Da ingratidão
Que brota nos corações amargos.

Gostaria
De ser uma rosa, pra alegrar
Os olhos tristonhos
E caminhar, de mãos dadas,
Com a paz e o sorriso.



BORDANDO A VIDA
Régis D´Almeida



Se a pele negra é tão bela
E tão minha
Pra quê costurarmos
O que é ela
E estar feito
Acho melhor bordarmos
Os nossos defeitos
Que andam rasgando
Os nossos direitos
E da mãe natureza





A BOLA PAIXÃO DE MUITOS
João Batista Mariano


Milhões de pessoas, atentas, esperando a quarta, sábado e domingo chegar,
Para irem para os estádios, para ver a bola rolar.

Cada um torcendo pelo seu clube, já sentado em sua cadeira está, só falta
mais um pouquinho, para o jogo começar.

Apita o juiz, a bola rola pelas terras deste grande Brasil espalhando
grandes emoções, os corações chegando a mil.

Lá vai a bola, a bola rola, a bola voa, seja com força ou devagar, os olhos
estão atentos, esperando que neste momento alguém chega pra marcar.

A bola lá no escanteio, alguém toca nela, e ela vem voando, muitos já estão
esperando, de repente alguém salta mais alto, e de cabeça um lindo gol acaba
marcando.

A torcida grita, a torcida salta, a torcida chora,
a torcida exalta, esta é uma paixão difícil de entender.
Ah! Eles aí de novo,
já aguardam a próxima semana para ver novamente a bola correr.



CRUELDADE QUE ASSUSTA
Orpheu Luz Leal


Desde os primórdios do mundo,
Na era de Adão e Eva,
Que já se encontrava a treva
Sobre um indivíduo iracundo.

Pois Caim,um fratricida,
Tipo invejoso e inútil,
Matou por motivo fútil,
O seu único irmão em vida.

E o filho de Deus, Jesus,
Inocente condenado,
Foi cruelmente açoitado,
Morreu pregado na cruz.

No Coliseu,ó meu Deus,
Por leões esfomeados
Cristãos foram devorados
Por ordem de alguns ateus.

Tribunais da Inquisição
Para a fogueira mandaram
Aqueles que discordaram
Da vetusta tradição.

E Galileu se livrou
De ser morto na fogueira
Pois “concordou”com a besteira,
E a Corte o inocentou.

E em tempos mais recentes
Adolf Hitler mandou
Ao holocausto e matou
Alguns milhões de inocentes...









GATA EXATA
Júlio César Teixeira


Vulva adocicada por gotas de mel
relva dourada cobrindo um dorso de deusa
águas dantes navegadas por barcos amadores
mas nunca singradas por uma caravela amante

Pensas que o mundo é teu mundo
encontrando sempre essa confirmação
tentam prender-te em um aquário
quando o mar é teu destino

E quando alguém te contar uma história verdadeira
ficarás pasmada e sem chão
deitarás em um tapete felpudo
chorando e tragando os ácaros da decepção

Então, quando despertares, serás Cinderela
sem nada que te prenda ao passado
livre para seres desvairada
como uma doce Pauliceia






A MORTE DO POETA
Glayson Carneiro


Era um dia qualquer,
Não sei se fazia sol ou chuva
As condições atmosféricas eram as mesmas.
Não era o dia de nada.
Nenhuma data especial!
A humanidade respirava as mesmas coisas de
[sempre...]

Os ônibus estavam lotados
Luzia cozinhava o mesmo almoço
Lali estudava e sonhava (ainda não sei com o quê)
Ninguém notara a morte do Poeta
Só agente funerário, o padre e o coveiro
Mas não sabiam que de um poeta
A repetição das coisas faz despercebida
[miudezas importantes]

Nenhuma homenagem
Nem salva de tiros
Pombas não revoaram
Havia somente em cima
De sua cova
Este escrito do próprio Poeta...




SUSTENTO RECICLADO
Irineu Baroni



Lixo: restos orgânicos
Inorgânicos recicláveis
Restos humanos
Reciclados na miséria

Peleja do sustento:
Disputa diária
Com as mãos
Que trabalham e recolhem
E jogam aos abutres
Do aterro

A fumaça embaça
A realidade alheia

A fome absorta e vil
Absoluta
Reina em cada gesto
Da mulher do filho do homem
Na disputa sórdida e febril

Lixo: restos absurdos
Desumanos recicláveis
Recolhidos na pobreza
Sobre humana
Do sustento
Desorganizado...




A FLOR TENEBROSA
J.Franco


Flor tenebrosa,
Laelia por excelência.
Seu profundo azul
tende ao mar:
- Conspiração de cores -
se impõe Soberba,
no gênero rei das orquídeas.
Matiz
que encanta e se dilui
anisotrópica
em nosso olhar
E, à vista do incauto, seduz
respingo de luz
em meio ao sonho de selvas
que não se vêem mais.






O EGOÍSMO DO TANGO
Maria Clara Segobia


O tango penetra
na alma dilacerada.
Na dança unidos
em um só compasso
representam sua dor.
No olhar transferem
toda angústia
num pedido de socorro.
Sentindo cada um
sua amargura.







QUANDO AS MÃOS FALAM
Thereza Freire Vieira


Há mãos que ajudam e consolam
Mãos em repouso, mãos que trabalham
Mãos que buscam o que estão além do alcance
Mãos que batem, empurram, mãos que acariciam
Mãos que agarram, mãos que doam
Mãos que brincam, mãos lutam
Mãos que amam, mãos que odeiam
Mãos amigas e mãos inimigas
Mãos que dão a vida e mãos que matam
Mãos que fazem os alimentos e mãos que fazem as drogas.
Mãos que curam, mãos que ferem
Mãos erguidas em uma prece que agradam a Deus.





DE BRUMADINHO A BONFIM
Márcia Araújo


No meu trajeto vou olhando a paisagem
Percebo árvores de tom ferrugem
Respondo aos acenos de quem nunca vi
Passo por casas em ruínas
Ipês amarelos colorem meu caminho
Algumas flores são roxinhas
Galhos retorcidos formam sombras complexas na estrada do meu pensamento.
A ponte torta me causa vertigem
A curva do rio me faz pensar na vida, o rio nunca é o mesmo, nem nós somos!
Vejo bambuzal, milharal, curral...
Capelas e cruzes a margem.
Sigo observando vales e montanhas
As nuvens formam figuras, pura miragem
Pelas janelas abertas a poeira vermelha dança
Fazendo par com cada lembrança
Na estrada de chão, com suas curvas sinuosas... Passagem para um só...
Aproximo-me do meu destino enfim!









SOBRE AVES DE RAPINA...
Marlene Porto Bandeira

Não quero um abutre para devorar as minhas carnes e em seguida regurgitá-las em outras bocas.
_Não é assim que o faz?
Quero um “homem-águia” que conduza-me ao silencioso altar das montanhas e lá,
no gélido granito do penhasco, acolha-me na ardente concha das suas asas
e vorazmente deguste-me; _Regurgitar-me?
Exigirei que seja na boca dos nossos filhos. E tenho dito!







AMANHECER COM O DIA
Lêda Tavares da Rocha

Acordar
Com o dia
Raiar
Com o sol

Amanhecer

Amanhecer
No ritmo
Da mãe
Natureza

Amanhecer
Com o dia...

Pássaros
Cantando
Sol
Despontando
E a vida
Pulsando
Fora
E dentro
Do peito

Despertar
Saudar o dia
Brilhar com o sol
Sentir a vida

Amanhecer.




BELÔ
Terezinha Romão

Tu és belo sempre belo.
Aquele que não teve o privilégio de nascer aqui
Ouviu sempre esta frase "vamos a Belo Horizonte”,
E o coração disparava de felicidade.
Era ir para rodoviária.
As deliciosas paradas de lanches,
A chegada triunfal na rodoviária,
A alegria dos parentes,
Era ver um mundo de gente bonita,
Lojas alinhadas, encantadoras vitrines,
Depois a gente cresce e de você não esquece,
Não dá outra, você já adotou a gente,
Então é mãe da gente,
Mãe grande, cheia de bondade,
Alegre, vibrante, com inúmeros amores,
Torcida do Cruzeiro, Atlético, América.
E das elegantes lanchonetes.
Das noitadas no Elite, Camponesa, Tulipas
Dos engravatados coronéis,
E das madrugadas nos motéis,
Mangabeiras, Pampulha, Savassi,
Santa Tereza que beleza!
Floresta, Ipiranga, vida noturna agitada,
Das mulheres de bolsinhas nas calçadas.
Hó! BH da Afonso Pena, dos coroas bonitos, do Café Nice e Pérola,
Dos magnatas e doutores, Afonso Pena de todos os amores...
Dos gays, feiras-hipies,
Praça Sete, Pirulito, Camelôs, Parque Municipal e Serra do Curral.
BH tem turista, tem Milton Nascimento, Lô Borges, Edna Fagundes,
Alô Skanke
BH primavera constante.
Dos ipês e dos amantes, ouro, matas, cascatas
O diamante mais belo
Garimpado no horizonte do Coração
TE AMO





PEDAÇOS DE MIM
Sônia Nogueira

Mirei com tal desvelo meu passado
Pedaços temperados de ilusão
Sorriso em doação de amor velado
Na folha em branco, nacos de emoção

Saí catalogando na enxurrada
Colei todos os cacos á luz do olhar
Intactos, sem ranhura projetada
Voraz os arrastei pra não chorar

Na porta o passo incerto da saída
Havia um temporal que eu não previa
A chuva ria disfarçada de alegria

Colei no álbum fotos na lembrança
Ardil que a mente usa sem serventia
A nova safra folhou uma esperança





DIAS COMUNS
Amélia Luz

Acordar, espreguiçar,
olhar o sol despontar...
Calçar os velhos chinelos
sentir o conforto
das roupas surradas,
tomar o café em família
ler o jornal no sofá...
Depois ir até o jardim
aspirar o cheiro da terra
colher uma rosa amarela
apreciar a sua formosura
pétala por pétala...
Arrumar a gaveta do armário
descobrir um velho livro guardado
reencontrar um passado
viajar nas suas páginas emocionantes
a tempos distantes...
Sentir o aroma do refogado
que vem da casa vizinha
provocando o apetite.
Ir até o alpendre
olhar a rua, os transeuntes,
a chuva fina que cai!
Perceber a harmonia dos dias comuns
sem nada especial a se fazer.
A vida correndo tranqüila
cada coisa empilhada em seu lugar
cuidadosamente...
Esperar o carteiro que vem
trazendo notícias de alguém.
Festejar com alegria a beleza daquele dia
lembrando que seríamos ingratos
se reclamássemos da mesmice
que encontramos sempre nos repetidos
e adoráveis dias comuns!
Tédio? Quem é poeta,
não tem!!!





A CASA DOS SONHOS
Paulina Vissoki

Dois bebês estão por vir
Numa casa bem perfumada
Com folhagens bem verdinhas
Na sacada da entrada.

Os móveis bem arrumados
Os enfeites mais atraentes
E os carrinhos enfileirados
À espera dos visitantes.

No quarto as duas caminhas
Com lençóis engomadinhos
No roupeiro, as camisinhas
São guardados com carinho

Ao lado, muitos brinquedos
Bichos, bonecas, joguinhos
Todos aguardam alegres
A chegada dos meninos.

São crianças bem arteiras
Que mexem com os pés, com os bracinhos
Mostrando que estão de acordo
Com os afagos de nosso carinho...

Ele não precisa de chupeta
Nem reclamar, ainda, não interessa
Vai esperar bem quietinho
A mamadeira que vão aprontar...

Ela não quer o sininho
Que na sua cama badala
Prefere a musiquinha suave
Com os guisos, de cima, a balançar...

Gigi já sabe trocar
As fraldinhas das bonecas
Agora, será fácil mudar
As roupinhas dos maninhos

Na casa dos sonhos
Tudo revela alegria, bem estar...
Gigi sorri de braços abertos
Feliz, logo, logo os maninhos
Vão chegar...

Na casa dos sonhos




VENDO A OBRA DO GRANDE PINTOR
HOLANDÊS VINCENT VAN GOGH
Áurea Gontijo

Vejo retratos, molduras,
Divinos coloridos vejo
Natureza morta, flores, muitas flores
Vejo quadros, auto-retratos
Paisagens, desenhos
Pessoas infelizes
Pintadas divinamente
Pelo artista amoroso
Que os retratou fielmente
Os quadros parecem falar
Existiu um ser iluminado que um dia os desenhou
O mundo ele muito amou
Entretanto, sucumbiu à intolerância
À doença e ao desamor
Não posso evitar a emoção
Inundo-me de cores
Sóis,
Girassóis,
É a explosão do amarelo!
Viva o grande Van Gogh!






DO TAMANHO DO MUNDO
Bilá Bernardes

É o sertão
quedando morro acima
ou morro abaixo
matéria vertente
força das Gerais, vida
em aprendendo sente

da secura brota verde
brotam também
grotadas, veredas
se avizinham aves
andanças e voos
no ar do respiro
profundo

o sertão é
do tamanho do mundo
é o próprio mundo
que habita o coração
o pensamento, a margem
e o profundo do ser no
ser tão gente

homem no mundo
mundo em cada homem
o sertão e o homem do sertão
renascem da seca
e crescem
do tamanho do mundo
(tentando homenagear Guimarães Rosa)

TRÊS EPISÓDIOS
Paulo Aguiar
M
Agora, que as sombras desvanecem-se
que as pedras tornam-se nítidas e
os obstáculos incontornáveis,
Há pelo menos o contorno da luz suave
e o céu azul, sem nuvens,
é um grande placar vazio
de um jogo que vai começar.
Ambição de ser árvore,
bastar-me em um lugar,
ser um grande candelabro de
cabeça para baixo.
As máquinas e seus ruídos
tem vida independente,
indiferentes aos nossos humores.
Integrar-se ao conjunto maior.
Paciência mais ceticismo.
Tentar não resvelar no cinismo,
Tentar ser fiel àquela criança determinada
que me formou (...)
(Continuação da´(T) tarde e da (N) noite, no livro)
´
´

CONVITE
Liz Monteiro
`
Fiz estes versos esta noite
Para brindar nosso amor
A lua está nos chamando
Vem depressa, por favor!
O céu está todo estrelado
Nos convida a namorar
A lua com seu brilho
Querendo nos prestigiar
Não percamos esta magia
Sejamos uno outra vez
O universo conspira
Quer ver-nos juntos outra vez
A praça toda enfeitada
Os seresteiros já vem
Trazendo toda alegria
Compartilhemos, meu bem
O pipoqueiro na esquina
O jornaleiro também
Vendendo os seus produtos
E alegria quje tem.
´
AMARELINHA
Zélia Beatriz
´
Seus braços no meu ombro, ensaio de abraço.
Soltos risos, cabelos em laço,
Um pé encolhido, outro no chão
Pulando ladrilhos, um sim outro não.
Casal em ziguezague, romântico gracejo.
Quem cair paga prenda - um beijo.
Não me faça falsear no chão.
Não me deixe cair em tentação.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

FOTOS DOS POETAS EN/CENA 3

Elizabeth Cury B. Watanabe
Mulheres... mulheres...

O que se pode dizer sobre a mulher...
Sobre as mulheres...
Das Marias...
Das Aparecidas...
De tantas outras anônimas...
Só mudamos de nome!!!
Todas são fortes.
Nunca se intimidam.
Diante dos desafios...
Tornam-se corajosas
e desafiadoras.
Muitas ainda sofrem...
Apesar de grandes conquistas!!!
Pelo dom da maternidade...
Representa a vida...
Em todos os cantos
do mundo, espalha
seus encantos...
Inspiradora do amor...
Com sua doçura, batalha
para que o mundo
seja melhor...
Não importa a idade...
Mulher agora é sempre...
Mulher de verdade!!!
Elizabeth Cury B. Watanabe

João Batista Mariano
A natureza ferida

Ó homem que fere,
Ó homem que mata,
Por causa do ouro,
Por causa da prata.
Destrói as florestas,
Matam os animais,
Lá se vai a natureza,
Perdendo a sua beleza,
Que não volta jamais.

E o homem não se importa
Com nada daquilo que faz.

Os homens matam as aves do ar,
Matam os animais na terra,
Matam os peixes no mais profundo mar.

Lá vai o homem,
Levando a terra a destruição,
Não respeitam a Deus,
Nem a natureza, e
Nem tem compaixão.

Voa pássaro, vai voando,
Foge do homem que está te matando.
João Batista Mariano
Elza Teixeira de Freitas
Se eu soubesse que virias

Sorrateiro como um gato
chegaste assim, mansamente...
Fiquei surpresa, de fato,
ao ver-te tão atraente.
Se eu soubesse que virias
teria me preparado,
posto um sorriso nos lábios,
leves gestos ensaiado.

Teria a sala arrumado,
lavado bem a cozinha,
teria feito um assado
para servir à noitinha.

Se eu soubesse que virias
teria tudo ajeitado
e feito um pudim de côco
ou de leite condensado.

Oh! Meu Deus, se eu advinho
teria comprado flores,
teria comprado vinho
e esquecido os dissabores.

Se eu soubesse que virias
teria as unhas pintado
e depois tomado um banho
bem gostoso e demorado.

E também passado um brilho
nos meus lábios ressecados;
teria pintado os olhos
já um tanto embaciados.

Se eu soubesse que virias
teria o quarto arrumado;
lençóis de seda na cama
eu teria colocado.

Branda luz eu fixaria
no abajur de cabeceira,
bons CDs escolheria,
lembrando a noite primeira.

Se eu soubesse que virias
um cenário diferente
com certeza eu montaria
bem antes do sol poente.

Mas, já que não me avisaste
eu terei que improvisar;
eu não sei se já notaste
novo brilho em meu olhar.

E, quando a noite chegar,
embalada na canção
é somente libertar
a minha imaginação.
Elza Teixeira de Freitas

Luiz Zanotti
Eu sou um cara perdido e achado Estou no vão das suas coxas
Extasiado e bêbado Sou o sorriso do após
A gargalhada do após
A amante deitada no leito Sujos e deliciosos Lambuzados
Perdidos num só prazer
Respiro o seu hálito Masco a sua boca no café da manhã
Cuspo mais uma vez em seu ventre Só desejo
Satisfaço mais uma vez o meu paladar
Na sua pele carnuda e macia
Mas quero também veias, dor e amor Vomito esperma
Seu anel de ouro Seu anel de couro Seu anel rosado
Percebido, mal intencionado Sou o esperma na sua boca
O fruto final do Desperdício e prazer
Luiz Zanotti

Apresentação

Amélia, Antônio, Anatália, Basilina, Benedito, Brenda, Cecy, Cláudio, Cicinho, Cristina, Diego, Dionísio, Dora, Elaine, Elizabeth, Elza, Euna, Fátima, Geraldo, Gilberto, Gertrudes, Gato Pingado, Iara, Irineu, Isabella, João Batista, Josenir, J. Franco, L. Rafael, Luiz, Márcia, Márcio, Marcos, Maria Clara, Maria Goreti, Maria Morais, Marta, Nídia, Paulina, Paulo, Rogério, Virgilene, Sebastião, Sônia, Soninha, Vanderlei, Waldemar e Walnélia; todos eles estão em cena escrevendo a própria história.
E agora cada um pode ir mais além, pois se entrarem em contato com cada participante deste livro poderão compartilhar poemas, conhecer a cidade em que cada qual reside, promover o lançamento deste Poetas En/cena, em parceria, pelo Brasil a fora.
Para destacar-se na cena é importante renunciar ao individualismo, atitude tão comum dos homens modernos. A união é imprescindível nos dias atuais e o Belô Poético – Encontro Nacional de Poesia de Belo Horizonte é um dos endereços certos para esse compartilhar.
Para estar nessa cena é preciso ousar, arriscar, atuar... A chave está nas mãos de cada poeta, assim como dos leitores.
Reunidos na cena para, como uma constelação, brilharem mais forte, sempre.

Rogério Salgado & Virgilene Araújo



Benedito C. G. Lima

Este é o modo de amar

Gosto de ouvir
o som de sua voz
anda rilhando no tempo
brincando de palavra
desenhando frases
esboçando um amor infinito.

Gosto de sentir
o sabor do teu jeito
arranhando o espanto
pisoteando a saudade
voando célebre
espatifando nos meus lábios.

Gosto de tocar
nas teclas sensuais do teu corpo
arrepiando o galo da procura
descobrindo a mosca de deleite
buscando no vôo dos pássaros da
linguagem
codificar a única mensagem que sei dizer:
EU TE AMO
Este é o meu modo de amar.

Benedito C. G. Lima

Vanderlei Lourenço


Poema do Eu

Sou negro
Há os que me querem preto
A certidão de nascimento, pardo
Há os que me enxergam africano
Sem defender causa:
Negro

Sou negro
Há os que me comparam à noite escura
Há os que me lembram os açoites
A carne viva
O sangue derramado
Há os que defendem tese

Eu?
Sou negro
E basta

Negros sujam, asseguram-me:
Na entrada ou na saída
Eu rio.
Não é engraçado?


Wanderlei Lourenço

GatoPingado
Mímica
homenagem a Jiddu Saldanha

corpo-expressão
fala sem palavras
comunicação expressa
no controle
do gesto

poesia e poema
sem letras, sem som
só corpo dizendo
da vida, da emoção

Isso não é só dom
Bilá Bernardes
Poema de Bar

Mão que goza
Cada gole
Cada miúdo mordido
Cada prazer embutido
Na cachaça engordurada.

Mão que rala
E talha o mundo
Em mais um dia de trabalho

Mão que escreve na carteira
a impressão duma vida inteira
Calejada, enrugada.

Karol Penido


Elaine Bueno
Marcas

Não me fale das conseqüências
dos meus atos de agora.
Trago no corpo evidências
de minhas renúncias de outrora.
Elaine Bueno
Antônio Souza

Romã

Minha mãe quando tomava café
Sorvia o mundo numa xícara de esmalte marrom
Besteira eu dizer que eu tenho saudades de minha mãe
Mas daria toda a alegria do mundo
A quem me trouxesse a xícara

A vida, meu Deus, é um milagre.
Antônio Souza

Nídia Maria de Jesus
Brumadinho

Com suas serras neblinosas
E suas ruas morro acima,
É cidade generosa
Nas suas águas cristalinas.

Volteada em picos belos:
Rola Moça, Três Irmãos...
Os ipês amarelos
Me comovem o coração!

Na simplicidade ostenta
Seus jardins sempre floridos,
Num bom clima que acalenta
Este povo tão querido.

Os bambus abraçam as águas
No bom rio que caminha
Minerando suas mágoas
Numa música que é tão minha.

Que o progresso não lhe venha
Perturbar sua vida boa
E Brumadinho sempre tenha
A Natureza por patroa...

Que ela sempre fale alto
Na beleza das paisagens
Conservando seu planalto
Enverdecendo as pastagens...

Nas crenças diversificadas
Com Jesus erguendo a taça.
Cristandade vivenciada.
Cem de Deus tão imensa graça.
Nídia Maria de Jesus

Isabella Calijorne

Borboletas Pelos Ares

Borboletas pelos ares
Casais, amantes, pares
Amor com aroma de sedução
Confundindo a mente daqueles
Que só sentem atração

E o poeta
Louco de pensamentos
Pôs-se a pensar
Em seu próprio romance
Que acabara de começar

Borboletas pelos ares
Se pondo a voar
Trazendo melancolia
Lágrimas que embaçam o olhar

Pondo o poeta louco de pensamentos
A chorar,
Pelo ingênuo motivo de não saber amar
Isabella Calijorne


Paulina Vissoky
A estrela que vejo

Para a Rafaela

A estrela que vejo
Não é estrela comum
Tem a luz colorida
Com matizes do arco-íris

Passa, passa bem pertinho
Dos meninos de minha rua
Tem luz própria, reflete ligeiro
Nos caminhos da turma

Outro dia tentei agarrá-la
Com as mãos muito limpas
Mas ela se esconde, esconde
Na beirada da calçada

E quanto mais me aproximo
Levanta as pontas para cima
Seguindo pro alto com suas asas
Como prateadas borboletas...

São reflexos de uma luz
Do sol ou de partes de luas
Iluminando, meninos nossas vidas
Como anjo da guarda das ruas...
Paulina Vissoky

Rogério Salgado
O favo e a vela

A vida deveria ser mais doce
feito uma saia rendada de abelhas
depositando mel a cada instante
adocicando detalhadamente
sentimentos de cada um de nós

e feito paz, branca
sobre a mesa, acesa
iluminando novos caminhos
do porvir.

(Rogério Salgado & Virgilene Araújo)


Soninha Porto


A NOITE

o poeta aprisiona
fragmentos da noite
sacia a alma no beijo do luar
abriga-se no calor dos amantes
ou bebe ritos e vícios
ao som dos copos de bar

no silêncio estremece
no breu dos becos e vãos
das esquinas da mente
chora e briga com a solidão,
ri e faz amor com a vida.

traça perfis e esboços
a noite ainda é uma criança,
é dama da boca insaciável
do ventre profundo...
sempre à espera da poesia
Soninha Porto
Cicinho Barbosa
Ser criança

Ser criança
É ser feliz!
É brincar
Pedindo bis:

É fazer tudo inocente
É correr muito e pular
É sempre viver contente
E contente sempre ficar.

Mais alegre elas ficam
Quando-lhes – dão brinquedo
São fantasias infantis
“Nelas existem segredos”.

O sorriso das crianças
Contenta e descontrai
Qualquer adulto sorri
Com as graças que elas fazem.

Das melhores fases da vida?
É quando somos crianças
Nunca será esquecida
As maravilhas lembranças.
Cicinho Barbosa







Paulo Aguiar


As cigarras

Incansavelmente
perseguem sua melopéia.

Não queria dizer,
mas vi fulano
com sicrana!

As outras alvoroçam-se.

Quando?
Onde?
Como
foi?
Paulo Aguiar


Iara Alves

Bio dança

Ali te encontrei
acanhado
no teu canto
e eu também
cantei
no mesmo canto
tuas mãos
tocaram as minhas
e em espelhos
se multiplicaram
eram mãos buscando
mãos
até que uma roda
gigante
se abriu
nossos corpos
atingiram
o céu
soltos
donos do espaço

Na esperança de me encontrar
danço

Iara Alves

Euna Brito
Tempo de Cigarras...

Outubro – como calar cigarras?...
Não há silêncio que não se quebre
Em tempo de cigarras,
Onde haja cigarras...
Som contínuo e incômodo,
As cigarras me desafinam...
Decibéis decididos sobem ou
Descem mais
E mais
Em decimais desmedidos...
Comedidas, as formigas.
Comeriam dívidas humanas ou inexistentes insetos
De nomes por existir...
A cantoria da floresta é o que resta de cantante neste pedaço de mato!
Mais as cigarras...
Os cupinzeiros têm a forma de certos cinzeiros.
O cupim, sim, é laborioso!
Em conjunto, trabalham muito, embora seu trabalho não nos interesse!
O assoalho da sala deverá se trocado
Por causa de cupins domésticos...
Os capinzais podem esconder cobras.
A vida é uma arena!
Temos de tourear as dificuldades que a vida nos apresenta.
Maldade pouca é quase bondade!...
Para esquecer os males, uns apelam para cigarros!...
Outros fazem poemas – o meu é para as cigarras.
Som e fumaça...
Evolam-se...

Euna Brito


Sebastião de Mello

Rebenque da saudade


Boi,
Boiada,

Já não se vê mais
Uma boiada sendo tocada.

Já não se ouve mais
O toque de um berrante,

Já não se vê mais
Uma vara de ferrão na mão,

Já não se ouve mais
O eco do grito de um peão.

Boi,
Boiada,

Só se vê
O caminhão pegando a estrada.

Só sé ouve
O peão chorando as mágoas

Saudade dos velhos tempos
Dos gritos que ecoavam

Ei boi...
Ei boiada...

Só se vê
A traia toda pendurada
Sela, laço, perneira,
Guaiaca empoeirada.

Só se ouve
Os casos sendo contados...

Boiadas que foram tocadas
Barretos, Ituitaba, Sorocaba...

Ei boi...
Ei boiada....
Sebastião de Mello
Marcos Freitas

PEDRA DO SAL
as jangadas partem cedinho
e somem no imenso azul distante
balançam, balançam e balançam no mar
retornam à tardinha
no cesto, três ou quatro peixes
vendidos a quatro ou cinco reais
Marcos Freitas

Amélia Luz


Rosas de ferro

Esculpir a poesia
Em fios de ferro
No alicate das próprias mãos,
Na forja, no fogo, no jogo do coração...
Modelar a palavra com sabedoria,
Dar vida ao verso livre, à fantasia,
Na lida insana, cotidiana,
Oficina as emoção!
A mão, delicada e pura,
Modelando o prazer de fazer,
O verso faminto que ora sinto,
À luz da manhã que inicia silenciosa.
Apalpar a poesia e o enigma,
Na perplexidade de criar do ferro bruto
Rosas modeladas em brasa viva.
Compor a fachada da alma
De um templo ornado de magia interior...
Esconder em páginas vibrantes
As idéias gigantes de um escultor,
Em sua hora plena de criação...
Ultrapassar o tempo
De um mundo para outro,
Enquanto a descoberta da felicidade
Nos embriaga e enlouquece!
E não há cansaço ao fundir as rosas,
As rosas em versos da minha emoção.
É sublime centelha, é inspiração!
Amélia Luz

Cristina Carone

Ao som dos violinos

Venham violinos...
Venham para perto de mim,
E deixem soar de suas cordas
As mais lindas melodias de Amor.
Inundam a minha alma de sonhos
Os sonhos mais românticos
Os sonhos mais apaixonados
Os sonhos mais eróticos
Que uma mulher possa ter.
Me deixem ouvir músicas,
Para que eu possa me sentir
Uma odalisca adornada
Pelo brilho do ouro e do seu poder.
Metal reluzente, e ao dançar,
Possa expressar toda a luxúria
Existente dentro de mim.
Preciso das Divinas
Que me levam ao Paraíso.
Profanas, porque sou carne
E, em minhas veias,
Viaja o desejo.
A paixão incontrolável
Quando estou ao lado
Do homem a quem pertenço.
Ouça-os ao longe...
Porque quero ouvi-los.
O êxtase me domina.
Neste momento, sou como uma cigana
Vestida com roupas coloridas.
Numa tenda exótica e florida.
Cabelos soltos, enfeitados por uma flor.
O corpo falando,
Se insinuando,
Ao homem dos meus sonhos.
Venham... venham...
E me alegrem nesta noite escura
Onde, nem uma só estrela
Vejo no céu.
Desnudam-me por inteiro,
Porque sou Esfinge
E, muitas vezes
Femme Fatalle.
Tragam com vocês,
O homem da minha vida
Aquele por quem vivi
E morri de amor.
Cristina Carone

L. Rafael Nolli

Balada homicida

É preciso matar o vizinho com um tiro de fuzil,
antes que ele compreenda os textos sagrados
e venha, como irmão, a seu lar,
comer do seu pão e beber do seu vinho.

É preciso degolar os amigos,
ou enforcá-los em seus cadarços
(eles não usam gravatas),
antes que eles entendam Marx,
decretem o fim da era dos desiguais
e venham exigir que você participe do combate,
deixando para trás sua coleção de tampinhas
de refrigerantes
e de caixinhas de Malrboro.

É preciso matar os homens
– contrariando Drummond –
antes que eles entendam a poesia que há nas coisas
e comecem a distribuí-la em seus gestos diários.
Assassiná-los antes que liguem para a sua casa
e convidem-no para ver a lua
ou um mosquito de Proust,
retirando você de seu conforto militar, remediado.

É preciso se matar, sobretudo se matar,
antes que a vida se refaça no interior dos lares
e a alegria volte a corar a face dos homens:
antes que eles se compreendam, venham à sua porta
e a derrubem, por acreditarem-na obsoleta.


L. Rafael Nolli



Diego Mendes de Sousa


Frisson à Rilke

Que o Tempo não refute nunca
o rastilho prisioneiro e perplexo
do Amor
pois o sangue- motor da vida- pulsa
rarefeito
no apelo escondido dos Astros
a debilitar o indispor do mundo
que arrasta o azul sobre o branco:
o ar puro da felicidade
Somente o Amor filtra a ofensiva
da amargura em qualquer coração
e derrama o inusitado sobre o rosto
a orvalhar a eviternidade
e apreender o martírio de tédio
que deslumbra
a existência sufocante
em recatos de sabedoria enevoada
Diego Mendes de Sousa

Dora Dimolitsas
Sou Pássaro
Pelo mundo perambulei
Cansada um dia parei,
E como pássaro,
Na poesia pousei.
As faíscas materializam-se
E caminham na esfera palpável das artes.
A construção criativa coloriu o panorama do meu consciente
Fazendo meus ideais poéticos como uma obra de arquiteto.
Tomando formas, criando imagens, dançando ao vento
Onde a flauta solta notas musicais,
Acompanhada por véus esvoaçantes.
Dora Dimolitsas

Josenir Baciliere
SOCIEDADE


Sou cego do olho
Surdo do ouvido
E manco do pé.
E sei que percebes
Mas meu pé direito
Exala chulé.

Cabeça de bobo
Também sou canhoto
É fácil de ver.
Minha língua é solta
Nem cabe na boca
De tanto bater.

Me olhe direito
Me fite nos olhos
E pare de rir,
Pois sou do teu jeito
Que fala dos outros
E esquece de ti.

Josenir Baciliere



Geraldo Afonso
Tempo

No tempo que penso
que penso no tempo
não fica momento
tão breve que seja
que passe depressa
ou até vagaroso
levando essa doce
visão de alento
que vai e que volta
surgindo do nada
chegando a ser tudo
e levando pra longe
vencendo a distância
e embalando no tempo
pensando ser dono
de tudo e de todos
na onda criada
tal qual uma duna
viajo e volto
espero e refaço
e numa das ondas
encontro você.
Geraldo Afonso

Waldemar Alves
O mundo da música

Arte e técnica combinam
Os sons e as tonalidades
As sete notas do arranjo
O aprendizado da partitura
A incrível memória musical
Seja na alegria e na tristeza
Nas cenas do mocinho solitário
No oeste americano
Ressoa o som amigo
No carro, ônibus, trem
Avião ou condução
Na trilha sonora de cada filme
No hino de cada país
No ritmo de cada cultura:
Country, jazz, blue, rock,
Pop, reggae, tango, bolero,
Samba, MPB, tropicália, brega,
Bossa-nova, clássico, valsa
Para de sucessos,
Instrumentos musicais:
Violão, violino, viola, guitarra,
Sanfona, sax, piston, órgão,
Piano, bandolim, pandeiro, banjo
A música faz a festa.
Waldemar Alves

Sônia Martelo

Os olhos de meu menino

Os teus olhos vibrantes, meu amado menino,
são dois lindos faróis acesos sempre a brilhar,
a conduzir com garbo meu feliz destino
rumo a um sublime paraíso sem par
onde a paz, onde a alegria, onde a ilusão
fazem de meu peito sua perene morada
e aquecem o pulsar deste meu coração
com chama ardente qual braseiro na estrada...
E quando os teus olhos me fitam de um jeito bonito,
um suave sorriso fica a pairar em teus lábios,
sinto então que me alço até o azul infinito
livre de toda dor, livre de tristes ressábios...
São teus olhos castanhos tão cor de mel
que me animam pela minha Vida afora
e eu chego a pensar que estou no Céu
quando os miro, esqueço de tudo, esqueço da hora,
não percebo o tempo passar, não vejo mais nada
além de teus olhos no encontro dos meus
e nesta minha longa e duradoura caminhada,
todo o meu Ser rende muitas graças a Deus!...

Sônia Martelo
Dionísio Silvares
Minhas Gerais
por Dionísio Silvares

Meu canto ecoa as rimas já lavradas,
Colhidas e moldadas nas Gerais.
Canta também as glórias conquistadas,
Seja na guerra ou seja em meio à paz.
Por isso, dai-me, ó ninfas bem-amadas,
A inspiração que em vossas serras jaz,
Para que o canto espalhe em toda parte
Dos mineiros o ardor do engenho e d’arte.

Nossa história começa numa Vila
Rica, onde disputavam os pastores
Com seu canto os amores de Marília,
Com seu choro atenção às suas dores.
E eles cruzavam prados pelas trilhas,
Cantando ao gado e aos montes seus amores,
Cientes de que a fortuna é mal segura,
Pois males acompanham a ventura.

E assim nossos pastores não estavam
Cegados pelas flechas do Cupido –
O abuso português eles notavam
Mais duro do que sempre havia sido.
E, enquanto todos eles trabalhavam,
Apenas o Rei Luso, enriquecido,
Gozava das riquezas exploradas
Sob o som das nervosas chibatadas.

Por isto, planejaram a revolta,
Lutando pela nossa liberdade.
Queriam como dantes ter de volta
A calma de uma vívida igualdade.
E, no entanto, um traidor de língua solta
Repassa informações da sociedade,
Que é caçada, chegando ao fim tão cedo,
Entre penas de morte e de degredo.

É que nesta terra,
Para os mártires, calmo jazigo,
O sangue prospera,
Garantindo à memória um abrigo.

E o sangue deles não correu em vão,
Pois o Brasil em breve libertou-se.
Mas batia igualmente o coração
Atado às rimas vis que a Europa trouxe.
Éramos livres e, no entanto, não
Existia uma musa que assim fosse.

Tão pálida e tão bela como a lua,
Vinha tísica, a Morte e vinha nua.

Jazia no sepulcro quase morta
E os poetas, quase mortos, entre lágrimas,
Como um homem que nunca se conforma,
Sussurravam as suas rimas pálidas.
Até que um pouco de razão bateu à porta
Carregando, por ora, esta musa que, esquálida,
Conseguiu transformar-se em saudável mulher,
Mais bela e definida – a todos um prazer!

É que ao longe ressoavam sinos dissonantes,
Trazendo um véu de sombra aos ombros dos amantes.
Acendeu-se o sidéreo manto como um círio,
Iluminando a madrugada de delírio,
Onde ouviam-se as vozes de preces distantes,
Do velório da musa coberta de lírio.

Cantava o sino em lúgubres rezas:
“Pobres poetas! Pobres poetas!”

Mas em breve vem na aurora
um sol que a sombra descora.
A musa está liberta
das grades da rima, da métrica
e de toda exigência poética.
Percorrerá agora todo espaço
infinito, dos infinitos prados,
escalando montes, descendo vales,
pairando sobre o Belo Horizonte que já nasce.

A musa está nesta cidadeZONA qualquer...,
e o homem por detrás do vidro fumê
é um motorista como qualquer outro,
que respeita as placas quando vê,
mas que, de resto, deixa o carro correr solto.
E o vidro do seu carro é escuro,
atrás dele o homem se esconde
das pulgas dos cachorros dos vagabundos
se esconde dos pivetes presos pela polícia.
Pivetes. Pobres. Presos. Pretos como o vidro do automóvel,
que já não se move.
O semáforo escorre num vermelho escarlate.
Stop. A vida parou. Parou o automóvel.
E não mais pára – dispara quando o verde bate.
Verde que desaparece das matas
e que reaparece nas notas.

O carro anda.
A vida anda.
O mundo anda.
E a gente anda apressada...
Eta gente besta, meu Deus!

A gente não nota que a musa é cantada
(agora) por todos! Na língua de todos!
Mulheres tristes e felizes cantam
e não apenas são cantadas;
pobres e ricos se encontram
pelas ruas asfaltadas;
e a rima que vem é a rima que cai,
profunda filosofia do mineiro: “uai!?”.
É a musa-utopia de todos os tempos,
exposta para que todos a vejam
e que outras musas sintam inveja.

Minas Gerais, te orgulha! Teu futuro ascende
E o teu passado fulge, fundando-se em fama.
Inflama-te avançando por dentre as sendas!,
A todos anunciando o brilho desta chama
Que espalha no horizonte tal grandiosidade,
A retumbar no monte o grito: LIBERDADE!


Gilberto Maha
Poema para Além Mar

Permita-me
ver-te bem
além dos olhos
Além das espumas
de Abrolhos
Além do mar
sem fim
Permita-me
ver-te a alma
incandescida
pelas noites
mal dormidas
por não estares
junto a mim
Permita-me
ver-te além
da alvorada
após a noite
maltratada
a procura
de um jardim
Permita-me
ver-te além
do horizonte
que procuras
não sei onde
nem em Povoa de Varzim
Permita-me
oferecer-te mãos amigas
longe das invejas
e sem intrigas
Colo quente
incandescente
Coração latente
a te ofertar
tudo isso
cá do outro lado
deste seu
além mar

GilbertoMaha®©



Gertrudes Greco
Plantão do dia a dia

Mãos que trabalham
sem cessar...
Pernas que caminham
sem descansar...
Cabeças que não param
de pensar...
Curativos, medicamentos
pra arrumar... preparar.
É quase hora de
encerrar...
Corredores imensos,
quartos lotados...
Emergência! S.O.S.
Dr. Avisado...
Agitam-se de seus postos,
com os devidos
medicamentos preparados,
aqui trazidos...
Mais uma vida salva!
que alívio!...
Outro que se foi...
Deus quis assim...
E retornam os amplos
corredores...
Dos grandes quartos,
os pacientes; enfermeiros.
A cuidarem e a
serem cuidados
novamente...
Rotineiramente...
De plantão à plantão,
Diariamente!!!...


Gertrudes Greco

Maria Morais
Ipê Amarelo

Em cachos douros floridos
nas beiras das estradas se vê
altivos qual mastros erguidos
natural Bandeira Brasileira – é o Ipê.

Sobrepondo sobre as poucas cores
o cinza asfaltico pétreo e triste
sorrindo vitorioso, desprendendo odores
o Ipê amarelo às secas resiste.

Desafia a devastação do cerrado
altivo erguido na sua floração
no amarelo simbólico do Brasil.

Em cachos douros admirado
louvando pela beleza o Rei da criação
o Ipê amarelo do cerrado floriu.


Maria Morais





Maria Clara Segobia
Familia

Eu e Tu
Nós
Elas

Eu e elas

Após
Elas e eles

Eu?
Só!
Maria Clara Segobia

Anatália Moreira Freire
Grande Beleza


Grão Mogol hoje és grande
Mas um dia fostes um grão
Plantaram-te em terra seca
Fecundou pela razão
Sem que ninguém te cultivasse
Teve essa progressão
Todos que vivem aqui
Alimentam-se do teu chão
Nasceste de uma serra
Pedra bruta, porém, amada
As pessoas que te visitam
Por você ficam encantadas
Grão Mogol descrevo a sua grande beleza
Serras, matas, muitas flores
Nas suas grandes veredas
Sem contar com as sempre vivas
Enfeitando a natureza
Rios, águas cristalinas, requinte da natureza
Só nosso Pai, o Criador, pra fazer tanta beleza.

Anatália Moreira Freire

Fátima Borchert
Meias finas

Meias finas
Com ligas
Brancas
Pretas
Carmim
Eram o desejo
De toda mulher

Meias finas
Com ligas
Nas coxas
Que ligam
O ventre
Que liga
Os seios
Que ligam
A boca
Eram o desejo
De toda mulher
Fátima Borchert

Cecy Barbosa Campos
Cena cotidiana

O cidadão de bem foge aterrorizado –
tenta escapar de seus perseguidores
que não sabe quem são.
Sente-se acuado por sombras indistintas
que espalham a morte
sem alvo definido e sem motivo algum.
A mãe, levando o filho à escola,
tem a rotina diária interrompida
e, escondendo-se atrás de uma barraca,
tenta proteger com seu corpo magro
a criança que chora, apavorada.
Por outro lado surgem mais atiradores,
misturam-se bandidos e policiais
não identificáveis como seres humanos
e irreconhecíveis como animais.
O fogo cruzado vai se intensificando
e a bala perdida atinge mais alguém
no dia a dia de terror, na cidade grande.
Esse crime é mais um que não será computado
nas listas estatísticas, de tão banalizado.
A bala perdida que hoje mata
um cidadão de bem,
torna-se apenas
uma repetitiva notícia de jornal.
Cecy Barbosa Campos

Cláudio Márcio Barbosa Minar


A pluralidade visceral
Que me atormenta
Em instantes diversos
Alimentado meus sentidos múltiplos

A procura de contextualizar
Exorcizando o vulcão que emerge
De forma a reformar os versos
Em ação de verbalizar

O gozo da incerta hora
Certa abundância precária
Flui subitamente
Domando a ânsia
A textualizar sutis erupções.
Cláudio Márcio Barbosa

Brenda Marques
Toda regra da exceção

Nem tudo que é perfeito se faz de pretexto para compor um poema
Nem toda canção se cria da velha companhia da presença criativa
Tudo o que se permite nem sempre admite novas performances
Toda luz clareia, mas algumas de tanto iluminar ofuscam brilhos.
Neste ritmo, dá-me uma paleta de sons e tons para fazer arte
Desenrole a linha para colocar a letra e seguir por outra parte
Onde revele os sons que luzes ofuscam e os poemas acendem
Nem todas as canções eternizam, mas ainda assim vendem.
Quando o lápis com a ponta quebrada fincar o peito como lança
E por mera desavença se resgatar a poesia de forma incoerente
A paz chegará ao incômodo coração do escritor na lembrança
E ele seguirá em sua lira a olhar para tudo de modo diferente.
BRENDA MAR(que)S PENA

Marta Reis
Pra Sempre

Procuro no céu uma estrela
nela o brilho do teu olhar

Parece que foi ontem
está tudo tão presente

Tuas histórias permanecem
com lembranças tão antigas

Tênue fio realidade-fantasia

Naquela manhã sombria
o mundo se vestia de luto
desabava tudo ao redor

Montaste um cavalo alado
foste cavalgar o céu

Vô, me conta teu segredo
talvez acalme minha dor
em que estrela foste morar?

Marta Reis


Maria Goreti Rocha

ESTAMPA


Digito palavras.
Não penso, não falo,
Apenas escrevo.
Não são versos,
São impressões que surgem.
Rotas alteradas
Do meu silêncio vazio,
Na noite criança
Cansada da lida.
Tintas, tecidos, pincéis...
Teço imagens na mente,
Bordo sonhos
Da infância perdidos.
Sorrio vazio,
Tudo é silêncio.
Em meu peito
Um grito calado.
Resvala minh’alma
Por entre lenços de seda.
As cores escorrem
Gotas de mim.

Maria Goreti Rocha
Márcio Adriano Moraes
A POESIA

A poesia é a lâmina que melindra a alma,
Que revela horizontes e destrói trincheiras.
Clareza reluzente de uma tarde de aurora,
Alva flor rósea de caminhos e alamedas.
São magnas tropas de vocábulos em tropo
Feitas para corações sensíveis e loucos.
Amadas gritarias no alto do topo
De grandes mentes inexprimíveis em fogo.
A poesia não é santa, por malícia, encanta,
E, quando morta, revive a pessoa que se ama.
Uma droga que dopa a sensibilidade
Através de uma orla de amabilidade.
Ser poeta é ser um condor que voa e cava,
Que diz tudo ou nada, apenas com uma palavra.

Márcio Adriano Moraes


J. Franco
Quadros por segundo

Num gole de café,
Djavan desfila Vaidade
na madrugada quente,
brasileira.
Meus olhos vítreos
fitam teu corpo vívido
em quadros por segundo;
curvas , estradas
- entradas -
rodovia balzaquiana.
E eu, de tão seu,
só teu,
soltei-me.
J. Franco

Márcia Araújo
PARTEJAR
Partejar é difícil
Seja com ajuda, cesariana
Seja fórceps, expulsão
Seja natural, naturalmente
Fazer parte do mundo e se sentir a parte dele
A partir do encontro com a parteira!

Partejar é difícil
Partir sem lágrimas, sem despedidas
Para participar de outros mundos
Sentir-se partícula
Às vezes particular às vezes universal.

Partejar é difícil
A partir de um encontro
Na parte que morre...

Partejar é necessário!
Márcia Araújo
Irineu Baroni

TROCADO



Moço me dá um trocado?
Menino pivete
sem camisa
e descalço.

Moço me dá uma ajuda?
Passeio da rua
seu lar
sua morada.

Moço me dá “dezcentavo”?
Água da fonte
seu lazer
seu brinquedo.

Moço me dá uma moeda?
Traseira de ônibus
seu transporte
sua morte.

Moço me dá...???

Menino carente
menino doente
sorriso latente
futuro delinqüente...
Irineu Baroni

Basilina Pereira
INSUBMISSA

Fui desnudada por um sonho interior
e impregnada pelo cheiro do capim.
É como mácula esse martírio doce,
que surge feito relâmpago,
à medida que me aproximo...
A liberdade é uma tocha que apaga
no ritmo da inspiração
e eu me sinto estrangeiro
no meu próprio ninho.
Quero cultivar o vício
de ouvir o som de harpas,
acordar com pingos de cores
e flutuar sobre os meus versos
sem submissão
ao que está fora de mim.

Basilina Pereira


Walnélia Pederneiras
Zoom
Lépido
Forte
Audaz.
Sorte
Saber
que é sonho
e se desfaz.
Walnélia Pederneiras

Poetas En/Cena 3ª edição



Confira a relação dos participantes, abaixo:




Naturais de:
Amélia Luz (MG*), *Anatália Moreira Freire, *Antônio Souza, *Basilina Pereira, *Bilá Bernardes,
*Brenda Mar(que)s, *Cecy Barbosa Campos, *Cláudio Márcio Barbosa, *Cristina Carone
Diego Mendes de Sousa (PI), Dora Dimolitsas (AC), *Elaine Bueno, Elizabeth Cury B. Watanabe (SP) *Euna Brito, Fátima Borchert (RJ), *Geraldo Afonso, Gilberto Maha (RJ), Gertrudes Greco (SP), *Grupo Gato Pingado, *Iara Alves, *Irineu Barone, Isabella Calijorne,*Jaques Franco, João Batista Mariano, *L. Rafael Nolli, Luiz Zanotti (PR),
*Márcia Araújo, *Márcio Adriano Moraes, Marcos Airton de Souza Freitas (PI), Maria Clara Segobia (RS), Maria Goreti Rocha (ES) , *Maria Morais, *Marta Reis, *Nídia Maria de Jesus, Paulina Malchick Vissoky (RS), *Paulo Aguiar, *Rafael Guimarães Silva, Rogério Salgado(RJ), *Virgilene Araújo, *Sebastião de Mello, Sônia Ditzel Martelo (PR), Soninha Porto ( RS ), *Vanderlei Lourenço, Waldemar Alves (CE), Walnélia Pederneiras(SC)


Luz, paz e harmonia para todos nós.